Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos. E porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços. E estreitar distâncias. E encontrar os pássaros: há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas.
Amor. Bolinhas de sabão. O som de copos com água. O som das gotas no chão. Um sorriso tímido. A música por trás dos ruídos. Um coração encostado no outro. Um ou dois para sempres. Um avião nas mãos de um menino. Um barquinho de papel. Uma pipa atravessando as nuvens. Uma sementeira de tulipas. Um mingauzinho de aveia. Um par de meias listradas. Dois ou três cata-ventos. Uma palavra inventada.
Rita Apoena
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma
que o mundo no qual eu acreditava deveria existir em algum lugar do planeta.
Nem se fosse apenas dentro de mim... Mesmo se ele não existisse em canto algum,
se eu, pelo menos, pudesse construí-lo em mim, como um templo das coisas mais
bonitas em que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria
cheio de amor, e eu nunca mais ficaria doente.
Rita apoena
Anúncio para solitários
Procura-se um amigo sozinho
de andar discreto e gesto silencioso.
Procura-se desesperadamente um amigo
que saiba se aproximar
de um passarinho.
Rita Apoena
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Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora
porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão
fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto.