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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um ciclo



O primeiro olhar, o encontro, o início.
A atração, o sexo, a paixão.
O sexo, o sexo e o sexo.
Mais sexo, sexo e sexo.

A curiosidade, a conversa, o interesse.
As juras de amor, as promessas, a felicidade.
O aniversário de um mês de namoro.
O dia dos namorados, as surpresas

O jantar, o cinema, a música.
O teatro, o parque, o jantar.
A viagem, a praia, o sol,
O bronzeador, o biquíni, a cerveja gelada.

A volta da viagem, as músicas, as risadas.
O aniversário de dois meses de namoro
O aniversário dela, vários presentes
O aniversário dele, vários presentes.
Outra viagem, outro lugar, o aconchego da suíte.

O vinho, o ravióli recheado, música.
O frio da montanha, a fondue a dois, música.
A volta da viagem, a alegria, as fotos.
O aniversário de seis meses de namoro.
A segurança, a confiança, o costume.
Menos sexo, mais conversa, risadas.
Mais viagens, menos música, mais descanso.
As fotos, a lembrança do começo, a história de amor.

A conexão com o outro, as convergências, os planos.
Mais planos, a rotina com o outro, a satisfação.
A aliança de compromisso, os parentes, a festa.
O aniversário de dois anos de namoro.
O aniversário de três anos de namoro.
Os preparativos, as economias, o financiamento.
Os sonhos, as idealizações, as promessas.
Os padrinhos, os pais, a igreja.
A festa de recepção, a alegria da união.
Ela disse sim. Ele disse sim.
Até que a morte os separe.
A emoção, as lágrimas nos olhos, a chuva de arroz.

As latinhas amarradas no carro
O tchau dos amigos e parentes.
A viagem, frança, Itália, passeios de trem.
Passeios turísticos, jantares, dança.
Mais passeios, fotos, fotos.
A volta, o começo, o recomeço.
A vida a dois, o cotidiano, a realidade.
O trabalho dele, o trabalho dela, os afazeres domésticos.
Acordar junto, jantar junto,dormir junto.
Acordar junto, jantar junto,dormir junto.
Acordar junto, jantar junto,dormir junto.

A rotina, os defeitos, as indiferenças.
A tolerância, a tolerância...a intolerância.
As divergências, as divergências, as divergências.
Os amigos, as amigas, programas separados.
As discussões da relação.
Mais conversa, menos sexo.
Mais cansaço, menos sexo.
Uma amiga dele, um amigo dela,válvula de escape.
Uma amiga dele, o amigo dela,confidentes.
Amiga dele, Amigo dela, Amantes.


A desconfiança, a investigação, a descoberta.
As cobranças, as acusações, as negações.
As lágrimas, as lembranças do começo, a tristeza.
A decisão, a iniciativa de um, o protesto do outro.
O último olhar, o desencontro, o fim.

leuza Santos
Texto extraído da Folha de Pernambuco 07-06-09

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

"Pequeno tratado sobre a mortalidade do amor"


Alexandre Inagaki

Todos os dias morre um amor.

Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor.
Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina.
Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos.
Morre em uma cama de motel ou em frente à televisão de domingo.
Morre sem beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, com gosto de lágrima nos lábios.
Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, cartas cada vez mais concisas, beijos que esfriam aos poucos.
Morre da mais completa e letal inanição.

Todos os dias morre um amor.

Às vezes com uma explosão, quase sempre com um suspiro.
Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos em admitir.
Porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso.
De saber que, mais uma vez, um amor morreu.
Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa.
E esta é a lição: amores morrem.

Todos os dias um amor é assassinado.

Com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença, a forca do escárnio, a metralhadora da traição.
A sacola de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o silêncio ensurdecedor depois de uma discussão: todo crime deixa evidências.

Todos nós fomos assassinos um dia.
Há aqueles que, feito Lee Harvey Oswald, se refugiam em salas de cinema vazias.
Ou preferem se esconder debaixo da cama, ao lado do bicho-papão.
Outros confessam sua culpa em altos brados, fazendo de penico os ouvidos de infelizes garçons.
Há aqueles que negam, veementemente, participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de chat ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso.
Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos para escrever livros de auto-ajuda com nomes paradoxais como O Amor Inteligente ou romances açucarados de banca de jornal, do tipo A Paixão Tem Olhos Azuis, difundindo ao mundo ilusões fatais aos corações sem cicatrizes.

Existem os amores que clamam por um tiro de misericórdia: corcéis feridos.

Existem os amores-zumbis, aqueles que se recusam a admitir que morreram.
São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra teimando em resistir à base de camas separadas, beijos burocráticos, sexo sem tesão.
Estes não querem ser sacrificados, e, à semelhança dos zumbis hollywoodianos, também se alimentam de cérebros humanos, definhando paulatinamente até se tornarem laranjas chupadas.

Existem os amores-vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, comuns principalmente entre os amantes platônicos que recordarão até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4ª série, ou entre fãs que ainda suspiram em frente a um pôster do Elvis Presley (e, pior, da fase havaiana).
Mas titubeio em dizer que isso possa ser classificado como amor (bah, isso não é amor; amor vivido só do pescoço pra cima não é amor).

Existem, por fim, os amores-fênix.

Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, das contas a pagar, da paixão que escasseia com o decorrer dos anos, da TV ligada na mesa-redonda ao final do domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas a cada fim de dia e perduram - teimosos, e belos, e cegos, e intensos.
Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência.
Alguns os chamam de amores-unicórnio, porque são de uma beleza tão pura e rara que jamais poderiam ter existido, a não ser como lendas. Mas não quero acreditar nisso.

Um dia vou colocar um anúncio, bem espalhafatoso, no jornal.

PROCURA-SE: AMOR-FÊNIX
(oferece-se generosa recompensa)

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Crônica do amor


(Arnaldo Jabour)

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.


quinta-feira, 3 de julho de 2008

Amor Maduro


( Autor Artur da Távola )

O amor maduro não é menor em intensidade. Ele é apenas quase silencioso. Não é menor em extensão. É mais definido, colorido e poetizado.

Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento. Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro somente aceita viver os problemas da felicidade. Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer.

Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão. Basta-se com o todo do pouco. Não precisa nem quer nada do muito.

Está relacionado com a vida e a sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso. É feito de compreensão, música e mistério. É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança. O amor maduro não disputa, não cobra, pouco pergunta, menos quer saber.

Teme, sim. Porém, não faz do temor, argumento. Basta-se com a própria existência. Alimenta-se do instante presente valorizado e importante porque redentor de todos os equívocos do passado.

O amor maduro é a regeneração de cada erro. Ele é filho da capacidade de crer e continuar, é o sentimento que se manteve mais forte depois de todas as ameaças, guerras ou inundações existenciais com epidemias de ciúme.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa. Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois.

Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados cheios de sementes. Ele não pede, tem. Não reivindica, consegue. Não persegue, recebe.

Não exige, dá. Não pergunta, adivinha. Existe, para fazer feliz. Só teme o que cansa, machuca ou desgasta.


quinta-feira, 10 de abril de 2008

Um Belo Coração



(sem menção do autor)

Um jovem estava no centro da cidade, proclamando ter o coração mais belo da região. Uma multidão o cercou e todos admiraram o seu coração. Não havia marca ou qualquer outro defeito. Todos concordaram que aquele era o coração mais belo que já tinham visto. O jovem ficou muito orgulhoso por seu belo coração.

De repente, um velho apareceu diante da multidão e disse: "Por que o coração do jovem não é tão bonito quanto o meu?" A multidão e o jovem olharam para o coração do velho, que estava batendo com vigor, mas tinha muitas cicatrizes. Havia locais em que pedaços tinham sido removidos e outros tinham sido colocados no lugar, mas estes não encaixavam direito, causando muitas irregularidades.
Em alguns pontos do coração, faltavam pedaços.

O jovem olhou para o coração do velho e disse:
"O senhor deve estar brincando... Compare nossos corações. O meu está perfeito, intacto e o seu é uma mistura de cicatrizes e buracos!"
"Sim! - disse o velho. Olhando, o seu coração parece perfeito, mas eu não trocaria o meu pelo seu."

Veja, cada cicatriz representa uma pessoa para a qual eu dei o meu amor.
Tirei um pedaço do meu coração e dei para cada uma dessas pessoas.
Muitas delas deram-me também um pedaço do próprio coração para que eu colocasse no meu, mas, como os pedaços não eram exatamente iguais, há irregularidades.

Mas eu as estimo, porque me fazem lembrar do amor que compartilhamos.
Algumas vezes, dei pedaços do meu coração a quem não me retribuiu. Por isso, há buracos.
Eles doem. Ficam abertos, lembrando-me do amor que senti por essas pessoas...
Um dia espero que elas retribuam, preenchendo esse vazio. E então, jovem?
Agora você entende o que é a verdadeira beleza?

O jovem ficou calado e lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ele
aproximou-se do velho.
Tirou um pedaço de seu perfeito e jovem coração e ofereceu ao velho, que retribuiu o gesto. O jovem olhou para o seu coração, não mais per feito como antes, mas mais belo que nunca. Os dois se abraçaram e saíram caminhando lado a lado.

Como deve ser triste passar a vida com o coração intacto.

Deus e o amor do homem




(sem menção do autor)

Um homem chegou até o filósofo Ramanuja, e pediu:

- Mostre-me o caminho até Deus.

- Você já se apaixonou por alguém? – perguntou Ramanuja.

- Apaixonar-me? O que o grande mestre quer dizer com isso?
Eu prometi a mim mesmo jamais me aproximar de uma mulher, fujo delas como quem tenta escapar de uma doença.
“Eu sequer as olho: quando passam, fecho os meus olhos.”

- Procure voltar ao seu passado, e tentar descobrir se nunca, em toda a sua vida, houve algum momento de paixão que deixasse seu corpo e seu espírito cheios de fogo.

- Vim até aqui para aprender como rezar, e não como me apaixonar por uma mulher. Quero ser guiado até Deus, e o senhor fica insistindo em me conduzir até os prazeres do mundo?
Não entendo o que deseja me ensinar.

Ramanuja ficou em silêncio por alguns minutos, e finalmente disse:

- Não posso ajudá-lo. Se você ainda não teve uma experiência de amor, você nunca conseguirá experimentar a paz de uma oração. Portanto, volte para sua cidade, apaixone-se, e só me procure novamente quando sua alma estiver cheia de momentos felizes.

“Apenas uma pessoa que entende o amor, pode entender o significado da oração. Porque o amor por alguém é uma prece dirigida ao coração do Universo, uma prece que Deus colocou nas mãos de cada ser humano como um presente.”